
|
Insuficiência Cardíaca - Conceito e Epidemiologia 1, 2 |

|
Introdução
A partir da última década do século XX, a insuficiência cardíaca congestiva tornou-se um dos principais problemas em saúde pública. Atualmente, é a doença que mais cresce entre as doenças cardiovasculares em todo o mundo, sendo estimados 2.000.000 de casos novos a cada ano, contrastando com outras doenças cardiovasculares que apresentaram declínio nas últimas décadas. A prevalência global é estimada em 23.000.000 de pessoas. A estatística americana, estima que a insuficiência cardíaca afete mais de 3 milhões de pacientes nos Estados Unidos — quase 1,5% da população adulta, sendo a principal causa de mortalidade cardiovascular, com 300.000 mortes por ano e com uma incidência de 500.000 casos novos por ano. É responsável pela hospitalização de quase um milhão de americanos anualmente e é a principal causa de hospitalização no idoso. A insuficiência cardíaca é a principal causa de incapacidade e morbidade, prejudicando a habilidade dos pacientes em exercer atividades diárias e profissionais. Não existem dados epidemiológicos brasileiros que permitam definir a incidência dessa patologia no País com precisão. Sabe-se que representa cerca de 30% das internações relacionadas ao aparelho circulatório pelo SUS. Em números absolutos, representou em 2007 cerca de 295.000 internações. Em comparação com anos anteriores tem ocorrido uma queda significativa desde o ano 2000, quando o valor atingiu quase 400.000 internações. O número de óbitos teve uma queda menor, estando em 2007 relacionado em 23.412 óbitos de todas as internações. Fato é que a insuficiência cardíaca é uma evolução final natural das várias formas de doenças cardiovascular. Se por um lado a mortalidade das doenças cardiovasculares, principalmente da doença coronariana, diminui pela intervenção cada vez mais eficaz durante a fase aguda da doença isquêmica, o que explica a redução de internações por insuficiência cardíaca notada na primeira década do século XXI, por outro o número crescente de sobreviventes leva a um número acumulado cada vez maior de portadores de seqüelas, o que acabará por resultar no desenvolvimento futuro de novos casos de insuficiência cardíaca.
Definição
A III Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica descreve a insuficiência cardíaca como uma síndrome clínica complexa de caráter sistêmico, definida como disfunção cardíaca que ocasiona inadequado suprimento sanguineo para atender as necessidades metabólicas tissulares, na presença de retorno venoso normal, ou fazê-lo somente com elevadas pressões de enchimento. Numa definição mais simples, é a incapacidade do coração em manter o débito cardíaco necessário ao metabolismo, ou quando a manutenção só é possível através do aumento das pressões ventriculares. As causas podem ser por dificuldade no enchimento ventricular (ex: HVE), na função contrátil (ex: Cardiopatia dilatada) ou no esvaziamento da cavidade ventricular ( Ex: Estenose Aórtica). Outra forma de definir seria como a síndrome caracterizada por uma disfunção ventricular e da regulação neuro-humoral, acompanhada de sintomas de cansaço aos esforços, retenção hídrica e redução da expectativa de vida. Mecanismos compensatórios surgem na tentativa de aumentar o débito cardíaco, como o aumento da freqüência cardíaca, da pressão diastólica final e da massa ventricular. No entanto com a evolução a função ventricular declina progressivamente.
Insuficiência anterógrada e retrograda, direita e esquerda
Estas definições são clássicas e didaticamente são úteis para o entendimento da síndrome, no entanto ambos os mecanismos ocorrem simultaneamente e contribuem para o surgimento dos sinais e sintomas da insuficiência cardíaca. Chama-se de insuficiência retrograda a seqüência de eventos que a partir do coração levam a congestão do leito vascular pulmonar e venoso sistêmico. A partir de uma incapacidade do coração se esvaziar completamente ocorre um volume residual ao final da diástole. O aumento de volume leva ao aumento da pressão diastólica final. O aumento da pressão diastólica ventricular tera como conseqüência o aumento do volume e das pressões atriais. A pressão venosa e capilar aumentam, levando a transudação seja em leito pulmonar ou leito sistêmico. A insuficiência anterograda baseia-se no mecanismo onde o baixo débito cardíaco será responsável por má perfusão tecidual, incluindo cérebro, músculos e rins. O baixo débito renal leva a retenção de sódio e água. O conceito de insuficiência direita e esquerda está atrelado ao conceito de IC retrograda, onde a insuficiência esquerda seria o acometimento do leito venoso e capilar pulmonar, atrás do atrio esquerdo e a insuficiência direita o acometimento sistêmico atrás das câmaras direitas.
Disfunção sistólica e diastólica
A disfunção sistólica é a incapacidade do ventrículo se esvaziar, ou seja sua insuficiência como bomba propriamente dita. O déficit mecânico sistólico, seja qual for a etiologia, é a base do conceito clássico de insuficiência cardíaca. A incapacidade de esvaziamento total da câmara cardíaca leva ao aumento do volume e da pressão diastólica final, alem da queda do volume sistólico, levando a redução do débito cardíaco. No entanto outro mecanismo, que pode inclusive existir de forma isolada, é a disfunção diastólica, onde ocorre uma deficiência no relaxamento ventricular e no seu enchimento, levando ao aumento da pressão diastólica, sem necessariamente haver comprometimento da função sistólica. Este mecanismo pode gerar todos os sinais de insuficiência cardíaca clássica, mesmo na ausência de déficit sistólico. Veja detalhes no capítulo de fisiopatologia da ICC e função diastólica e IC
Insuficiência cardíaca de alto débito
Ocorre em situações clínicas como a tireotoxicose, beribéri, fístulas arteriovenosas, anemia e doença de Paget, onde o déficit é metabólico e o coração é incapaz de manter um débito suficientemente elevado para impedir o surgimento de sintomas de insuficiência cardíaca. Difere da insuficiência de baixo débito pelo fato do paciente apresentar extremidades quentes e roseas, pressão de pulso normal ou elevada e uma diferença A-V de O2 normal ou até diminuída.
|
|
Último Update: 20 de janeiro de 2010
1º Edição deste capítulo em julho de 1999 |
|
Manuais de Cardiologia Temas comuns da Cardiologia para médicos de todas as especialidades Livro virtual - Dr. Reinaldo Mano |
| | This site complies to the HONcode standard for trustworthy health information: verify here. |