A ocorrência de auto-imunidade deflagrada por fármacos é bem estabelecida na literatura médica desde o primeiro relato de lúpus induzido por sulfadiazina, em 1945. Hoje, mais de 100 drogas têm sido relacionadas ao desencadeamento ou piora das doenças reumáticas, sendo algumas de uso corrente em cardiologia.

ASSOCIAÇÃO

 DEFINIDA

POSSÍVEL

ASSOCIAÇÃO

Procainamida

Hidralazina

Alfa-metildopa

Captopril

Labetolol

Metoprolol

Quinidina

Podemos subdividir as complicações reumatológicas induzidas por fármacos em três categorias: auto-imunidade cruzada (como é o caso lúpus induzido por drogas, vasculites induzidas por drogas e miosites induzidas por drogas), alterações metabólicas iatrogênicas que podem deflagrar ou piorar doenças reumáticas  e efeitos colaterais idiossincrásicos que se somam ao comprometimento orgânico esperado para a patologia, piorando sua evolução.

No primeiro grupo, chama a atenção o lúpus induzido por drogas, que tem incidência estimada em 15.000 a 20.000 novos casos por ano nos EUA, em que o uso da procainamida e da hidralazina, junto com outros medicamentos como sulfonamidas, isoniazida, beta-agonista e anticonvulsivantes está freqüentemente implicado.

Um  terço dos pacientes que recebem procainamida por mais de um ano poderão ter sintomas e , por outro lado, menos de 20% daqueles tratados com hidralazina irão desenvolver lúpus. O risco de desenvolver a doença é dose-relativo, maior para aqueles que recebem doses maiores que 200 mg/dia ou dose cumulativa maior que 100 gramas.

Refletindo a idade e o sexo dos pacientes selecionados para receber esta prescrição, os pacientes que tem forma de lúpus induzida por procainamida ou hidralazina são homens e mais idosos e, quando comparados aos pacientes com lúpus idiopático, apresentam menos manifestações renais, neuropsiquiátricas e cutâneas. Queixas pleuropulmonares são relativamente freqüentes nas formas induzidas por procainamida.

Quanto ao perfil imunológico dos pacientes que recebem procainamida por mais de um ano, quase todos terão anticorpos antinucleares positivos após dois anos. Mais de 90% dos pacientes com lúpus induzido por procainamida e hidralazina têm anticorpos anti-histonas e 20-40% tem fator reumatóide positivo. O padrão do FAN é usualmente homogêneo, refletindo a reatividade contra histonas e complexos DNA-histonas, e um padrão salpicado torna esta possibilidade etiológica menos provável.

Discorrendo sobre complicações metabólicas, destaca-se o uso de diuréticos tiazídicos freqüente em pacientes idosos e hipertensos com grande potencial para comorbidade com patologias músculo-esqueléticas como condrocalcinose e atrite gotosa. Pela hiperuricemia causada e a possibilidade de deflagrar a precipitação de cristais e, conseqüentemente, crises de atrite nestes pacientes, o uso de diuréticos em pacientes com artrites microcristalinas deve ser evitado sempre que possível.

Já o uso de amiodarona como causa de fibrose pulmonar é exemplo clássico de droga cujo efeito colateral pode se confundir com o agravamento da doença do colágeno de base, devendo ser evitada em casos de lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatóide, esclerodermia, dermatopolimiosite e outras patologias que possam cursar com esta mesma complicação pulmonar. Essencial ainda é evitar sua associação com outros fármacos que possam causar uma potencialização desse efeito deletério, como é o caso do imunossupressor metotrexate, amplamente utilizado pelos reumatologistas.

    É interessante sublinhar, entretanto, que a maioria de informações a respeito é baseada em relatos ou séries de casos, sem exame epidemiológico cuidadoso que possa servir como evidência incontestável. Assim sendo o termo “induzido por drogas” pode ser mais apropriadamente referido como “possivelmente associado”.

Manifestações Reumatológicas de Drogas Cardiovasculares

Publicação em 10/02/03

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